Ribeiradio Versão para impressão
Escrito por Paulo Pereira   
Terça, 02 Março 2010 14:28

DESTAQUE

Independentemente de se ser favorável ou contra o empreendimento de Ribeiradio, é uma realidade que há um valor muito importante que se perde e os principais afectados deveriam ser compensados por essa perca

 

Valor ambiental, patrimonial do vale do Vouga

O Vouga é um dos rios de maior dimensão exclusivamente portugueses em melhor estado de conservação e ainda em estado bastante natural. As barragens que tem (Carvoeiro, Pessegueiro, Valgode, Drizes, etc.) são todas de pequena dimensão pelo que a ecologia natural do rio apesar de afectada não está comprometida.

 

Segundo o plano de Bacia do Vouga, mais de 30% do rio tem vegetação natural com uma galeria rípicola bem conservada, habitat refúgio para inúmeras espécies como a lontra, o gato bravo, o guarda-rios, a toupeira-de-água, algumas espécies de morcegos e inúmeros répteis e anfíbios; entre estes últimos podemos destacar o lagarto-de-água ou a salamandra-lusitânica, cujo habitat junto ao Vouga é precisamente um dos locais do Mundo mais urgentes em manter de forma a garantir a sobrevivências destas espécies prioritárias (constam no Anexo II da directiva habitats, pelo que tem o mais elevado valor de conservação). Outra espécie protegida pela directiva é o feto-vaqueiro, espécie muito rara que encontra refúgio em alguns afluentes da margem direita do Vouga; a alteração climática induzida pela barragem poderá impactar negativamente esta espécie e inclusivamente promover o seu desaparecimento.

O troço do vale do Vouga que ficará submerso devido à barragem de Ribeiradio é sem dúvida a região onde o rio Vouga é mais interessante, já que entre Porto de Areias (2 km a montante da área de regolfo) até jusante do paredão da barragem de Ribeiradio o  rio é selvagem e natural, sem açudes, represas, barragens ou outra alteração induzida pelo homem. A acrescer a este facto, os bosques de ribeira e os bosques mistos característicos da bacia do Vouga encontram aqui o seu expoente máximo. Este ecossistema ímpar e único em Portugal sofrerá profundas transformações, e o que é hoje um rio de média dimensão selvagem com uma galeria ripícola e diversa e um curso de água com espécies como o barbo, a boga ou a truta, passa a ser uma espelho de água incapaz de manter uma galeria ripícola (o que implica a perca de toda a diversidade associada a este importante habitat) e com condições ecológicas adversas às espécies que antes abundavam no Vouga.

 

Valor paisagístico, económico e patrimonial do vale do Vouga: alteração do território

Para além da biodiversidade, muitos valores do vale do Vouga ficarão submersos: terrenos de cultivo, pontes, moinhos, floresta autóctone, etc. A memória de uma região sofrerá uma mudança bastante significativa e as freguesias ribeirinhas como Sejães, Ribeiradio, Couto de Esteves (e outras) serão as mais afectadas. Independentemente de se ser favorável ou contra o empreendimento de Ribeiradio, é uma realidade que há um valor muito importante que se perde e os principais afectados deveriam ser compensados por essa perca.

O espelho de água criado acarreta a transformação radical de uma percentagem significativa do território de Sever do Vouga e de Oliveira de Frades. Para além da área submersa, uma faixa de 500 metros em redor da área de regolfo passa a ser zona de protecção, tendo as mesmas condicionantes da reserva ecológica nacional. Este território vai por isso perder muito valor, ou porque fica submerso ou porque passará a ter o uso fortemente condicionado.

 

Impacto económico: novo paradigma 

A natureza era vista como uma fonte inesgotável de recursos; hoje passou a ser encarada como o nosso bem mais precioso, com o desenvolvimento sustentável a ser não só desejável como absolutamente prioritário para uma exploração equilibrada dos recursos que a natureza nos oferece. A responsabilidade ambiental e social das empresas é hoje em dia prática corrente, e iniciativas como “Business and biodiversity” são reflexo do empenho das mesmas em promover um desenvolvimento respeitador do ambiente e das populações. Por isso, se é inquestionável que os promotores de Ribeiradio têm que assegurar que o investimento seja lucrativo, é muito importante que a fatia de território que vai ser radicalmente alterada para o bem comum de Portugal (energia e abastecimento de água) seja compensada, ambiental (minimizando os impactos ambientais) e socialmente (compensando as populações mais afectadas pela barragem).